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Do Tempo das Descobertas: O Estanque

Sexta-feira, 09.10.09

 

E a segunda Descoberta vem da Galiza:

 

 

Avelino Abilheira
" Cara amiga, caro amigo,


Nestes dias inversos em que a palavra "paz" pertence aos donos das
guerras, atrevo-me a incorrer no vosso prezado tempo com este breve
pensamento antigo sobre os alimentos perenes da vida, que são o amor, a luta, a ordem da matéria, a memória. Grande abraço!
 
 
O Estanque

Aconteceu a começos da estação migratória, durante sete noites de irrepetível alinhamento entre Vénus, Terra e Marte, nesses anos de rara esperança para o povo em que até as águas podiam voltar a falar: não existe para a História igual prazer que expulsar o opulento monarca que ocupava a tua casa.

Eu passeava na alta noite na Alameda, lembrando os seus caminhos, quando a superfície totalmente lisa do estanque começou a vibrar levemente desde o centro sob o mesmo princípio sonoro dos tambores e das membranas dos telefones infantis de lata e corda tensa. Sentei-me num banco para escutar melhor uma baixa harmonia de vogais. Apenas distingui algumas sílabas de flores antes de o vento perturbar as águas. A presença dum guarda aproximando-se convidou-me a partir, pois os tempos ainda eram menos livres que o desejo.

Voltei à noite seguinte à mesma hora. Junto da alverca circular, o Comissário instruía com gestos de vigor a um jovem pálido de olhar perdido que reconheci como habitante do outro lado da liberdade, um pobre guarda daquele ano da greve agora destinado a recolher informações, como se o acosso aos humildes doesse menos do que os golpes.

Fingindo indiferença, aproximei-me das águas pelo lado oposto, e o portento das ondas suaves repetiu-se. Mas de novo entrou um ar que rompeu a superfície e enxotou as palavras, porque com dois elementos —água e terra— traçamos os signos os humanos, mas os outros dois foram criados para apagar as escritas.

Só na terceira noite o estanque terso como um espelho para astros e aves difundiu com clareza fragmentos dum diálogo em dois timbres. Falavam papéis miúdos aliados com a substância do pão, porque nascem do mesmo germe vegetal. Então reconheci entre pausas palavras sobre flores e sangue, frases sobre poesia e persistência, sentenças da inconfundível matéria do amor. No seu banco, o pálido polícia escutava também, olhava-me em suspeita, detinha-se, registava coisas minuciosas num caderno.

Por fim, no zénite da quarta noite extremamente calma, pude reviver com prazer meses inteiros de conversas furtivas. Voltei a ver duas figuras a fiarem lentas danças de passos entre as árvores. Com a última frase singularmente clara todo o estanque tremeu como um redondo mamífero que acabasse de acolher no centro uma semente. Quando o diálogo concluiu com um prolongado nome de mulher, no branco silêncio final da sinfonia, retirei-me a descansar, tranquilo, pleno.

Nas noites seguintes a intensidade das vozes foi esmorecendo enquanto os três pontos planetários se afastavam da linha guia marcada no seu céu. Foi só no último dia do prodígio, quando quase nada se escutava, que observei como o jovem polícia já não escrevia. Se soava a voz da mulher, ele erguia a cabeça e olhava para o fundo dos salgueiros, como lembrando um abraço não vivido, o admirável rosto dessa voz, a breve visita em missão de trabalho à casa das acácias amarelas. Compadeci que o guarda fosse prisioneiro dum antigo desejo pelo qual nem sequer combatera. Pela minha parte, a ausência fizera-me entender que embora as flores irreparáveis morram, outras podem nascer no seu lugar para escreverem de novo nas janelas.


Pouco tempo depois houve um enorme massacre e uma guerra terrível. Se por desgraçada obediência eu tivesse levantado uma arma, talvez esta não fosse a nossa, mas a arma do terror. E talvez, em paradoxo, me visse obrigado a matar defronte na trincheira um infeliz converso que pálido de amor defendia a morte a liberdade dos povos e das águas para falarem quando se ordenam com justeza no infinito as três cores dos planetas.
"
 
 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:16








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